Uma promessa: Ou o milagre de uma reza forte...
Meados
de 1908. Aurora começava a vivenciar uma das fases mais negras e
tenebrosas da sua história. Ano funesto que marcaria profundamente a
memória de todos quantos sentiram na própria pele aqueles acontecimentos
marcados pelo absurdo, brutalidade e ignorância. Invasão e saque.
Apenas isso? Não. Fatos vergonhosos e lamentáveis que como feridas
incuráveis até hoje, mesmo depois 103 anos, ainda repercutem aqui acolá
como uma enorme cicatriz aberta de uma história ainda não completamente
bem contada. O próprio passado como que querendo a todo custo (ainda que
tardio) acertar suas contas com o presente.
Ocorrências
que, malgrado todo o peso da sua importância até hoje não foram
devidamente escritas com a pena lúcida e coerente da verdade.
Constituindo desse modo, um grande desafio aos estudiosos e
historiadores devidamente comprometidos com a real veracidades dos
fatos. Dentre tantos os acontecimentos ainda não efetivamente descritos
na história de Aurora, um em especial, me fora narrado pelo senhor
Vicente Jerônimo da Silva. Ex-tabelião do não menos antigo e pioneiro
cartório Quezado.
Com
base neste fidedigno relato, resolvi concatenar tais informações numa
pequena narrativa que ora se segue enfeixada no bojo da série: ‘História
que ouvi contar’ em cujo mesmo se incluem como desdobramentos: o fogo
do Taveira, a discutível demarcação das minas do Coxá, além da célebre
invasão por jagunços que ficara conhecida como ‘a questão de oito’. Tudo
isso na ânsia de fazer com que estes fragmentos históricos não venham a
ser definitivamente esquecidos pelas gerações, do presente e do futuro
e, tampouco perdidos nas brumas do tempo como tem sido comum diante de
uma história escrita, quase sempre, segundo ótica dos poderosos e dos
vencedores. Em última instância, uma iniciativa de puro resgate e
preservação da verdadeira história do povo aurorense e, em especial, a
dos oprimidos.
José Cícero
1908 - O Começo de tudo...
1908
– Um ano quase cabalar de uma década que poderíamos muito bem chamá-la
de perdida. Principalmente para os que a viveram a ferro e fogo. E a
duras penas, conseguiram sobreviver a tudo o que ela teve de mais
trágico e inusitado. Um tempo que duraria uma verdadeira eternidade por
conta dos crimes e outras atrocidades que se abateram como uma praga
terrível que se abateu sobre uma gente humilde e ordeiraacostumando
demais à lida penosa de uma vida inteira dedicada à agricultura de
subsistência, o comércio agropastoril, assim como a produção dos
engenhos de rapadura e aguardente. Em especial, a produção de milho,
algodão, oiticica, farinha de mandióca e o criatório.
No
meio de tudo isso as disputas políticas das mais raivosas, que para não
fugir à regra regionalista no mais das vezes, eram decididas na base da
bala. Monopolizadas que eram(quase sempre) por duas ou três
ramificações familiares que se alternavam no poder conforme a força que
conseguiam concentrar(a cada instante) e assim, fortaleciam seu poder de
barganha junto às hostes políticas da região e da capital. Eis aqui, em
rápidas pinceladas, o cenário objetivo do que era ou do que foi aquela
Aurora antiga e provinciana, escondida do mundo num entreposto
naturalmente fincado na porta do Cariri a meio caminho do Juazeiro e
Crato e do Icó a Fortaleza. Auge da velha estrada dos almocreves
margeando o então caudaloso rio Salgado que por quase dois séculos
serviu à ligação do interior com o litoral (Fortaleza, Aracati e
Mossoró). Fazendo assim de Aurora, como dissera certa feita o velho
Serra Azul: “oásis, rancho e tenda” para os tropeiros viajantes nas suas
andanças intermináveis. Verdadeiro caminho da própria colonização do
Cariri adentro.
Aurora
mais do que qualquer outra cidade da região sofreu em demasia diante da
pilhagem e da truculência que sofreu, maldades promovidas muitas vezes
pelos que tinham justamente o mister e a obrigação de defendê-la. Era
uma vila das mais prósperas de toda a região. Pagou-se assim, o mais
alto preço naquela guerra de facínoras contra os humildes e miseráveis –
os filhos da pobreza. Razão pela qual completara o poeta do riacho do
Pau Branco de que a história de Aurora era de fato, “trágica e
tremenda”. E quanto à questão de oito não foi lá muito diferente. Neste
episódio em particular, alguns ricos da época também tiveram que arcar
com seu quinhão de sacrifício. Foram roubados e humilhados. E caso não
fugissem teriam decerto, que pagar com a própria vida... O próprio vate
salgadiano tivera que forçosamente se abrigar em Quixadá e de lá derivou
definitivamente para Fortaleza.
Uma
saga histórica onde se misturaram bandidos, vassalos, heróis e
inocentes. O futuro nunca foi tão inacreditável para um povo, como
naquele fatídico ano de 8. Uma gente que mesmo em meio as agruras e o
sofrimento, devotou a sua própria vida em nome de uma causa nobre:
aúnica que lhe parecia possível - asobrevivência. Momento difícil de
injustiças, crimes deploráveis, superação e heroísmo dos que por sorte,
conseguiram sobreviver para contar ao futuro o que de fato aconteceu
naqueles tempos tenebrosos de infâmia sem tamanho.
Mas
vamos ao que me descreveu o velho Jerônimo – um exímio contador de
causos, cuja memória é quase uma enciclopédia de tão lúcida, rica e
fértil. Suas histórias e estórias são tão bem contadas, ao ponto de nos
dar a nítida e fantástica sensação deestarmos dentro delas.
Vivenciando-as assim nos seus mínimos detalhes. Verdadeira viagem ao
passado. Um longo mergulho no túnel do tempo. O tal contador de causos
fantásticos empreende tanta ênfase as suas narrativas que às vezes
imaginamos ser ele, o próprio protagonista de cada fato e historieta
narradas sob o mais autêntico dos entusiasmos – a emoção. Um grande
serviço que, sem sombra de dúvidas, se presta como verdade a nossa
própria história. Este seria, por assim dizer, o maior e mais duradouro
de todos os seus créditos como memorialista: a verdade.
Aurora no tempo do Império do Bacamarte
Como se deu toda a história: Uma viagem...
Uma
antemanhã de sábado. De um tempo distante e remoto lá pras bandas de
1908. Começo do mês de dezembro. Aurora ainda era uma vila. Um calmo
lugarejo marcado pela tranqüilidade de uma paz bucólica quase
cinematográfica e que tinha tudo para ser duradoura. Um povoado
esmaecido no âmbar dos dias calmos e morosos com suas horas mortas. Tal
como se a própria vida durasse uma eternidade...
Uma
época em que a pressa de viver não fazia nenhum sentido prático,
notadamente para todos os que experimentavamtranquilamente a lida
cotidiana daquele rincão estendido no oco do mundo, quase como um
autêntico lenitivo. Uma madrugada diferente. Era muito cedo e fazia
frio. O sol ainda não apontara no horizonte por sobre a serra da Várzea
Grande. A sensação era do mais completo vazio expresso num quadro imenso
do silêncio. Plena escuridão e quietude. O próprio mundo às escuras,
parecia no mais completo vazio absoluto.
A
barra do nascente ainda estava escura e um frio intenso parecia cobrir
os ares daquela Aurora antiga e paroquial. Pouquíssimas casas, na sua
maioria esparsa na primitiva geografia daquela vila, um tanto
desajeitada, com destaque apenas para o quadro da matriz onde moravam os
mais abastados. Os chamados coronéis, ricos e os remediados da época.
Do outro lado, pras bandas do mercado as casas de comércio mais
destacadas do major Sebastião Alves Pereira e do coronel Paulo Gonçalves
Ferreira.
E
naquela madrugada preguiçosa, belas lamparinas iluminavam o velho
sobrado construído nos idos de 1800 pelo coronel Xavier então residência
dos Gonçalves. Era de cara, a mais imponente das poucas residências
daquele tempo. E, que por sinal ainda se encontra de pé até hoje. O
silêncio das poucas ruas de chão batido aos poucos começava a ser
rompido pelo som que vinha de longe – cantos de galos(muitos galos) em
verdadeiro couro enchiam a madrugada de sonoridade, assim como o coaxar
de sapos, bem como o tradicional barulho de cambiteiros, a iniciar a
lida do eito dos engenhos de cana que rodeavam o quadrilátero daquela
vilazinha bucólica prostrada à margem do Salgado. O rio buscando com
suas águas, também fazer sua viagem infinita sempre nos rumos do
Jaguaribe.
O
sol parecia naquele princípio de dia não estar com pressa para nascer e
iluminar o mundo. Pura preguiça em tudo.As águas límpidas e claras do
rio Salgado corriam em disparadas para o Icó em sua absoluta
sofreguidão, arrebatando moitas e ribanceiras em todo o seu trajeto.
Vinham rompendo tudo a sua frente desde as cabeceiras da
nascente situada longe no sopé da serra da Batateira. Mas o espelho
d’água, assim como as pessoas, pouco mais de mil almas(na época), não
ais que isso também aguardavam os primeiros raios do sol matutino
daquela Aurora distante e sonolenta de uma estranha madrugada de sábado.
Na
rua grande e no quadro, ambos de chão batido adornados por grandes
moitas de capim de burro onde ficavam os casarões dos coronéis, uma
comitiva familiar se preparava para uma viagem. Era o clã dos Quezados e
dos Gonçalves – duas das mais importantes e influentes cepas familiares
de Aurora, assim como de todo o Cariri Oriental, e que naquela
madrugada viajaria até o povoado de Joaseiro. Quem sabe, buscando a
proteção segura do padre Cícero Romão Batista. Uma tentativa de se
evitar aquele projeto de assalto e insídia a pequena urbe, talvez. Um
presságio? Quem sabe? Antes do pior deixariam a cidade em favor da
própria segurança familiar.
(Continua...)
(*) José Cícero -
Poeta, pesquisador e escritor
onselheiro Cariri Cangaço