segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CE - Concurso público para professores: Uma típica faca de dois gumes

Por José Cícero
Concurso público. Desde a promulgação da Carta Magna de 88 para a felicidade quase geral da nação – convenhamos - foi uma novidade que de lá para cá, os anos têm nos provado que deu certo. Um instrumento isonômico e democrático que levou além do papel e das letras mortas a tão famigerada e sonhada igualdade dos cidadãos perante a lei. Ricos e pobres, pretos e brancos, apadrinhados e sem aderentes, agora seriam iguais. A linearidade das oportunidades agora seria fato.
Por fim, uma medida que só engrandece o estado democrático e direito da nação tupiniquim. Algo que ressalta e enobrece a luta de todos aqueles que primam pelo direito à igualdade e se utilizam não do 'pistolão', como no passado, mas do conhecimento e do esforço individual/intelectual como premissa para o ingresso profissional no serviço público em quaisquer das esferas. Uma coisa pela qual todos os brasileiros deveriam se orgulhar de vê-la funcionando a contento...
Como se vê todo concurso público é utilizado para resolver. Um expediente que deve funcionar em favor da sociedade e dos bons serviços prestados à coletividade. Do contrário, nenhum gestor iria fazer uso desta ferramenta se não houvesse a mais absoluta necessidade, interesse público e/ou emergência. No entanto, quem participou do último concurso realizado pelo Estado do Ceará neste dia 1º de novembro para o provimento de professores da rede pública de ensino, creio que deve ter experimentado a estranha sensação de que tal concurso foi feito não para aprovar, mas(pasmem) para o contrário. Por uma série de motivos... E olha que não me refiro unicamente ao altíssimo grau de dificuldade que o mesmo concentrara, porque isso seria até normal, não fosse um aspecto diametralmente oposto de quase todos os que já ocorreram na área.
Depois, pelo baixíssimo número de vagas oferecidas. Ora, quatro mil é brincadeira diante do verdadeiro número de carência que o sistema há muito apresenta. Depois pelas etapas propostas, num total de quatro. Isso mesmo: quatro! Que coisa demorada, penosa, quase humilhante se considerarmos que o Estado precisa com urgência de novos mestres. Será que a pressão da categoria e da própria sociedade, bem como a realização da última greve teve algo a ver com o nível quase metafísico do concurso?
Ora, o imenso número de professores temporários espalhados por todo o Ceará, alguns com mais de quatro anos prestando bons serviços ao estado parece ser mais cômodo do que professores efetivados com toda a cobertura e os benefícios da lei. Vez que os primeiros não fazem greve, não reclamam, trabalham quase à exaustão e até custam menos para o Estado.
Caso as quatro mil vagas não sejam preenchidas como é bem provável, de repente, não mais que de repente, o governo poderá dizer: “Taí, vocês me pressionaram e não tiveram a capacidade de passar. Então a culpa não é minha. Vou continuar com os contratos temporários”. O que na verdade, soaria como uma tácita desmoralização para a categoria, especialmente os temporários que já trabalham sob as condições descritas.
E aí voltariam alguns mais fragilizados moralmente e psicologicamente por não terem obtido o êxito desejado no certame. Estariam, ainda mais passivos, sem poder de reação alguma, diante de uma situação que a cada dia piora e se mostra vexatória, em grande parte para eles próprios e depois, para a educação como um todo.
Para piorar o imbróglio, cumpre ressaltar que foram justamente os professores temporários que menos dispuseram de tempo para se prepararem adequadamente para as provas, em face de estarem todos eles lecionando.
A propósito, e os que passarem na primeira etapa(prova objetiva); que critérios a mesa julgadora usará para reprová-los(se for o caso), os que passaram com absoluto heroísmo na fase inicial? Como se vê, muitas interrogações pairam sobre este processo.
Por fim, quero está errado nestas minhas elucubrações, quiçá mirabolantes, mas desejo que todos pelos menos, se dessem ao trabalho de refletir sobre as possíveis possibilidades de que elas possam de fato, por algum motivo, vir a serem verdades. E uma vez verdade sendo, poderão de fato acontecer.
Se eu estiver certo, fica difícil, sobretudo como professor, continuar acreditando numa educação diferente e de qualidade que possa provocar a tão sonhada revolução do conhecimento e da aprendizagem como tal se propõe e nos damos de corpo e alma a este monumental propósito humanista.
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Um comentário:

João Júnior disse...

Parabéns professor pelas palavras que certamente tem o aval dos demais membros da classe. Trata-se da principal profissão da civilização e o que vemos é um tratamento no mínimo hostil, não só se tratando do concurso, mas por todas as atitudes conjuntas que esse governo e alguns anteriores tem colocado em prática frente à educação no estado.