quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

MEMÓRIA: Não tem mais AURORA o café de Miriam


Um breve resgate sobre a memória afetiva e histórica dos Cafés e casarios antigos da cidade de Aurora no Cariri cearense.

Nos últimos anos constatamos com um misto de tristeza e revolta a maneira avassaladora com que a cidade de Aurora vem perdendo gradativamente parte importante do seu visual antigo. São prédios comerciais e residências que mesmo construídos de maneira simples, conservavam nos seus frontispícios as marcas e os padrões quase indeléveis de uma época distante ressabiada, dispersa nas brumas de uma lembrança quase sem idade.
Rapidamente, o passado arquitetônico da cidade está desaparecendo sem deixar vestígio. Substituído por modernas construções sob os impulsos de uma especulação imobiliária, cuja razão de ser está no lucro e não na preservação de qualquer memória. A cidade desse modo, vai se desfazendo daquilo que poderíamos denominar de patrimônio histórico material e até imaterial, posto que muitos destes espaços foram cenários para boa parte do cotidiano social e político deste torrão. Cafés, bodegas, o velho mercado das bugigangas (feira-livre), bancas de açougues, barbearias, casas de tecido, farmácias, garapeiras entre outros estabelecimentos que marcaram profundamente a vida sócio-mercantil não somente de Aurora como também de todo o interior caririense.
Há quem afirme, aliás, que este é um caminho sem volta, pelo qual nenhum município poderá dá-se ao luxo de abdicar deste processo inexorável de transformação urbanística, cultural, social e econômico, sob pena de parar no tempo e no espaço. Ou quem sabe, de perder o próprio bonde da história. Como certeza, Aurora há muito já se desfez daquilo que constituiu durante muito tempo o seu invólucro essencial que a diferenciava perante as demais da ribeira salgadiana: a sua identidade. A desfiguração da velha urbe é um fato que nos salta os olhos. E para os que estão distantes muito mais que isso... O que estão fazendo é uma crueldade! Um atentado dos mais aviltantes contra as nossas mais agradáveis reminiscências dos tempos idos. O processo por isso mesmo, além de célere é deveras exponencial. Mas como dizem, o progresso não pode esperar. O centro comercial de Aurora agora mais parece uma escada, literalmente edificada na direção do sol como uma tentativa desesperada de se alcançar os céus. Ao ponto de nos remeter as narrativas da própria Babel dos tempos bíblicos. Pouca coisa do passado comercial de Aurora ainda permanece de pé. E esta substituição desenfreada não se restringe apenas ao centro, ela também se estende a outros logradouros como o quadro da matriz, ruas, becos e avenidas. A 'força da grana que destrói e constrói coisas belas' declarou guerra a qualquer resquício do nosso passado. Eis aí o que poderíamos muito bem classificar como o fantasma devorador daquilo que os homens têm de mais sagrado: a sua história.
A situação é preocupante, uma vez que rumores dão conta de que o antigo casarão do Cel. Xavier; a mais remota construção da região de 1831 está prestes a ser negociado. Cumpre destacar ainda que, a duras penas, malgrado o abandono, patrimônios como o da Estação Ferroviária e a Casa do Agente (1920) também se encontram em situação deplorável de conservação. A Revista Aurora na sua 2ª edição/08 denunciou em reportagem especial de capa todo o estado de abandono em que estas construções antigas estão submetidas... É lamentável, o tratamento que se tem dado a preservação da nossa memória. Noutro viés, há alguns dias atrás, tivemos o fechamento do conhecido 'Café de Miriam', remanescente de uma época romântica em que os cafés ocupavam uma posição de destaque na vida social e política de todas as cidadelas do nosso interior. E em Aurora não foi diferente. Era por assim dizer, a caixa de ressonância de quase toda a efervescência de uma sociedade provinciana. Tudo o que ocorria na capital e até na região, chegava primeiro nas disputadas mesas dos cafés interioranos; verdadeiras agências de notícias do nosso passado. Era o centro gravitacional da cidade. Lugar obrigatório para políticos, apaniguados, bajuladores, potentados e até mesmo figuras populares de uma época que não volta mais. Coisas que as gerações do presente nunca haverão de conhecer e a posteridade, muito menos ainda.
Portanto, mesmo sem o glamour de outrora, diríamos, que o café de dona Miriam, localizado estrategicamente no coração da cidade, era um símbolo deste passado que por anos a fio resistiu bravamente o quanto pôde, as invenções de uma modernidade traiçoeira, sedutora e ilusória. Tudo lá tinha cheiro de história. Desde o cardápio, ao café no bule. Da própria estética do ambiente aos móveis, bem como o atendimento digno da melhor hospitalidade sertaneja. O fechamento das suas portas é também uma página que se vira para sempre na história recente de Aurora. Tudo passa, porém os cafés aurorenses, assim como o de dona Miriam não passam jamais, postos que permanecem edificados na memória coletiva e afetivo do povo. Porque a física nunca sobrepõe a força que tem, as recordações verdadeiras de um tempo belo e agradável. Ao passo que estas, têm o poder e a faculdade de viverem para sempre, naquilo que o poeta uma vez chamou de instante eterno.
Agora onde um dia existiu o Café de Miriam, há dois cubículos comerciais: um frigorífico e uma loja de variedades. Para os saudosistas, a sensação que se tem ao contemplar o lugar é como se o antigo prédio tivesse evaporado do dia para a noite. Resta-nos apenas, uma saudade tocando fundo a alma daqueles que viveram e, principalmente, fizeram parte desta histórica; guardada para sempre a partir de então, nas incontáveis reminiscência da belle époque de Aurora.

(*)À memória de D. Terezinha de Américo.

Prof. José Cícero
Aurora-CE.

Um comentário:

alysson disse...

E UMA TRISTEZA PARA NOIS QUE TANTO ADORAMOS ESTA TERRA DO MENINO DEUS