sexta-feira, 5 de junho de 2009

Reflexões sobre a Guerrilha!*



Há uma passagem no “Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano”, escrito por Marighella, que certamente tenha tido sua base nas observações de Che, em seu livro “A Guerra de Guerrilhas”, que, aliás, é interessante do ponto de vista estratégico, segundo as experiências de Guevara na revolução cubana.Discorre sobre como provocar uma ditadura até que ela monte um extenso aparato de repressão sobre a sociedade, a fim de que esta se volte contra o governo por se sentir alijada de garantias fundamentais. Assim, como afirma Che, a ditadura se desmascara, mostra-se como ela é. O que vem a gerar um descontentamento popular que poderia auxiliar as operações da guerrilha.O general Médici, que, conforme muge o cabo Anselmo, era um “bonachão”, teve a perspicácia de manter a violência e, ao mesmo tempo, acelerar o desenvolvimento dependente e antinacionalista da economia, baseado na oferta de bens de consumo duráveis. Com a copa de 70, estava tudo perfeito. A anestesia para o povo foi daquela de deixá-lo praticamente em coma.Durante a guerrilha urbana, ninguém da favela se levantou, preferindo a malandragem do samba na esquina, onde até uma caixinha de fósforos servia de percussão. O proletário estava com sono.A classe média queria dirigir um Maverick e ver TV a cores.E pronto.Com a mídia amarrada, o governo lançou uma campanha terrível e eficiente de aniquilação moral da esquerda armada. Enquanto isto, braços paramilitares do Poder Executivo cometiam crimes tão brutais quanto as SS nazistas.Não vivi aquele tempo, embora tenha nascido durante os eventos mais dramáticos, mas me arrisco a um palpite.Talvez se, a partir de 1970, toda a guerrilha urbana se desmobilizasse das cidades para se infiltrar nas selvas do país, poderia formar um corpo muito maior e mais coeso do que o composto dentro das cidades, onde a luta era mais difícil e compartimentada.Por outro lado, a guerrilha não dispunha de armamento de longo alcance. Para combate em selva, o fuzil é imprescindível. Um bom fuzil. Onde estava a Mãe Rússia que não mandou para os guerrilheiros do Brasil seus maravilhosos Kalashnikovs? Que conspiração comunista era essa afinal, em que os supostos principais interessados na posse do Brasil, que seriam os soviéticos, segundo a acusação de muitos na época, não se moviam um centímetro?Dentro da cidade, eu concordo com o que disse Marighella sobre o uso de pistolas, revólveres e pequenas metralhadoras, enfim, armas curtas para ações rápidas.Seria preciso assaltar pelo menos uns 20 quartéis no país para levar a fuzilaria toda, granadas, morteiros etc. Isso estava fora de cogitação, ainda mais depois que Lamarca deu um chão no arsenal de um regimento em Osasco. A vigilância se tornou implacável.O pessoal da rede urbana talvez não tivesse condições para empreender longas marchas dentro das selvas, movimentar-se com rapidez. Talvez não tivéssemos a astúcia dos vietnamitas, por exemplo, que colocavam a resistência total como o princípio básico da sobrevivência dentro das matas, numa desenvoltura impressionante que tornou lendária a tática de guerras daquele povo.Sei lá. Provavelmente, as Forças Armadas utilizariam bombas de fragmentação e NAPALM à larga se todas as guerrilhas fossem concentradas na Amazônia, sobretudo se Lamarca estivesse por lá, treinando militantes e camponeses que quisessem engajamento.Segundo a tática maoísta, as cidades deveriam ser esmagadas por um cinturão formado pela guerrilha popular, sufocando, estrangulando, atacando os meios de comunicação. No Brasil não tinha gente o bastante para isto. Como arrebanhar da noite para o dia um jeca-tatu que está lá nos rincões fumando a palhinha dele, com as unhas pretas de terra e as mãos grossas como lixas?A teimosia e a lamentável mania que a esquerda tinha de acusar outros grupos disto ou daquilo, fazendo juízos entre certos e errados, de modo dogmático, atomizavam seu aparato ideológico e militar. Havia vários raciocínios para um só objetivo, que nunca é alcançado quando um raciocínio se ocupa da destruição de um outro.Imagino outra hipótese: a da participação armada dos trotskistas, se estivessem a fim mesmo. Na verdade, eles se abstiveram. Como seria a relação entre a linha de frente treinada em Cuba e o pessoal de Trotsky?Eu quase tenho certeza de que, no final, os trotskistas seriam acusados pela derrota da esquerda e terminariam mortos como fizeram os comunistas contra os anarquistas na guerra contra Franco. Um banho de sangue entre as Brigadas Internacionais em uma das mais belas páginas da história da humanidade. Que desgraça!Ramon Mercader, bandido stalinista que rachou a cabeça do velho judeu no México, por ordem do crapuloso Big Brother, terminou seus dias na ilha, sob a égide de Fidel. Provavelmente, trotskista não seria gente bem-vinda para o combate, de tal forma que esta facção se limitou a lutar através de jornais clandestinos, até criticando quem estava no combate aberto.Alguns acusavam a ALN, por exemplo, de cair num tipo de terrorismo vulgar, de desvinculação das massas trabalhadoras, de lutar sem elas etc.[Por falar na ALN, recordo-me da entrevista do infame cabo Anselmo que defende a tese segundo a qual o grupo de Marighella nada mais era do que o braço armado do PCB; que o Partidão não tinha ficado “neutro” na luta e que o rompimento de Marighella com o partido através daquela famosa carta era tudo farsa para que o PCB ficasse intacto e a ALN pudesse descer a madeira...]Não há como intuir sobre o passado.Ninguém sabe que rumo tomaria a luta armada se ela fosse essencialmente rural, sem braços nas cidades, onde ninguém quis se levantar para aderir.De minha parte, eu não sei como procederia se vivo fosse naquelas condições. Acredito que não teria a energia [nervosa] necessária para enfrentar aquele aparato todo. Tenho respeito por aqueles que tiveram essa energia e morreram.Reflito sobre a possibilidade de revolução, que acho ser remota aqui no Brasil, quase impossível, mesmo via eleições. Não sei até que ponto um companheiro meu não estaria disposto a me matar somente porque discordei de alguns questionamentos que foram lançados. Não sei até que ponto estaria seguro ao lado de alguém que só seria meu amigo enquanto pensasse politicamente como eu.Eu sou comunista, não cultivo valores absolutos do stalinismo nem do trotskismo, e entendo ser melhor morrer ao lado de homens que são justos do que tomar um chão pela injustiça de um camarada de armas.É uma honra aceitar esse tipo de morte. Porque, a rigor, a luta só é justa enquanto der combate às injustiças.Os danos psicológicos do passado permanecem até hoje, para nossa desgraça.
Escrito por Luiz Aparecido

Um comentário:

LIVRO DIGITAL - LUIZ DOMINGOS DE LUNA disse...

Minha opinião sobre a Ditadura Militar no Brasil (1965 a 1985)
Por Luiz Domingos de Luna
www.livrodigitalartigosdeluizdomingos.blogspot.com


Caro amigo José Cícero da Silva, no ano de 1978 foi deflagrada a primeira greve das universidades Públicas no país, pude acompanhar de perto, pois, a pioneira foi a Universidade Federal da Paraíba (UFPB, entre um dos pensadores da greve estava um aurorense, Raimundo Sávio Tavares, que, inclusive chegou a ser ameaçado pelos policiais e detido em Aurora,dada sua atuação feroz pela normalidade do Estado Democrático de Direito.
Creio que os grandes repulsores da ditadura no Brasil foram as universidade públicas, Os sindicatos dos trabalhadores, principalmente, os de São Paulo, registre-se a força contra a ditadura na época do operário Luiz Inácio Lula da Silva, que atuava em todas as frentes contra esta página negra que suja a história Brasileira, a fiel escadeira dos interesses populares, as comunidades eclesiásticas de base sob o comando de Frei Leonardo Boff, O PMDB da época na pessoa do Dr Wlisses Guimarães e a UNE, União dos Estudantes no Brasil e não posso negar que o PC do B teve uma atuação forte e determinada para a restauração do Estado democrático de Direito.
Lembro bem que nossas ações de protestos foram devidamente acompanhado pela policia militar que, vez por outra, prendia um de nossos companheiros, quando isso acontecia, ai sim, o movimento aumentava mais, criava um novo vigor, tanto que o movimento grevista começou em João Pessoa e dada a repressão dos policiais, em uns três dias todas os Campis da Paraíba estavam paralisados.
A Intelectualidade do país, com raras exceções, esteve conosco para a restauração do Estado Democrático de Direito. Creio que o maior centro de tortura militar tenha ocorrido no Doi – Codi em São Paulo, porém penso que o maior dano a ditatura no Brasil foi criado por ela mesma foi o escândalo do Rio Centro.
A partir daí, a ditatura, com a atuação da CUT, do neo PT, do PMDB, da UNE,do PC do B, das CEBS, das Universidades públicas, da imprensa, ai foi um passo para a restauração da ordem democrática no pais, pois a sociedade já não acreditava mais, basta ver o comício das diretas já na Candelária no Rio de Janeiro- RJ com mais de um milhão de pessoas exigindo a normalidade democrática, razão esta, de não acreditar que o nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva aceite o convite das vivandeiras de plantão de aceitar a ruptura, ou quebra ou emenda da Constituição cidadã, 1988, para satisfazer os interesses de alguns, vez que, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma atuação de destaque para a derrocada do regime de exceção implantado pelos militares no final da década de sessenta, assim, prefiro acreditar em Dom Paulo Evaristo Arns, Brasil – Tortura, nunca mais.
Um pequeno relato de quem participou e viveu a época da ditadura Militar no Brasil, assim, é a minha visão global, regional e local de um período que com certeza empobreceu a qualificação intelectual do povo brasileiro e contribuiu para a formação de uma juventude sem referencial de luta, de sonhos, de determinação, de coragem, de enfrentar as adversidades, de ter garra o suficiente para fruição do estado dentro de sua normalidade plena. Pois, acredito que todas as mazelas brasileiras serão resolvidas, basta vontade política e exigência da Sociedade, vez que, vivemos em um estado Democrático de Direito, cabe ao povo brasileiro dar continuidade a esta sequência de Luz, a Luz do voto para equilibrar algumas distorções, feitas de forma isolada por alguns políticos inescrupulosos que pensam somente em si, na sua família e no seu bolso.